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Pernambuco:
50 ataques e inúmeros danos
O litoral pernambucano está em alerta. Os ataques
de tubarão que ameaçam principalmente
um trecho de 20 dos 187 quilômetros da sua costa
atingiram um recorde histórico: desde 1992 até
hoje, 50 pessoas - entre surfistas, bodyboarders e banhistas
- foram atacadas, deixando um saldo de 19 mortos, 31
mutilados e uma onda de pânico entre a população
que acabou rendendo ao Recife o título de capital
brasileira dos tubarões. Pernambuco lidera isolado
o ranking de incidentes com tubarões no País.
Só neste ano, foram quatro vítimas, sendo
duas fatais. Em São Paulo, que está em
segundo lugar, é registrada uma média
de um ataque a cada dois anos. As conseqüências
do "efeito tubarão", segundo o Comitê
Estadual de Monitoramento aos Incidentes com Tubarões
(Cemit), começam a pesar no bolso do Estado,
contabilizando prejuízos na atividade turística,
desde as agências de viagens até a indústria
hoteleira, passando pelas operadoras de esportes náuticos
e atividades de mergulho. O esporte local também
tem sofrido com a má fama. O surfe e o bodyboarding
pernambucanos, que sempre revelaram bons atletas, passam
por dificuldades para ocupar posição de
destaque nas competições nacionais devido
à diminuição do número de
praticantes.
Ao contrário do que muita gente pensa, o mar
pernambucano não está infestado de tubarões,
segundo explica o presidente do Cemit, Fábio
Hazin. Pesquisadores da Universidade Federal Rural de
Pernambuco (UFRPE), coordenados pelo professor Hazin,
trabalham com a hipótese de que os ataques tenham
sido cometidos por animais isolados. "Pernambuco
tem uma média de 3 a 4 ataques por ano e, para
isso acontecer, não precisam existir 300 tubarões
no nosso litoral", afirma. Para embasar seu raciocínio,
o pesquisador cita os resultados das expedições
mar adentro bancadas atualmente pelo governo estadual:
"Em todas as expedições realizadas
com o barco Sinuelo desde 2004 para localização
das espécies agressivas, foram capturados 22
animais, numa média de um tubarão por
mês". Coincidência ou não, Hazin
revela que, no período de oito meses em que o
projeto ficou parado por falta de patrocínio,
foram contabilizados oito ataques. () "Infelizmente,
os danos causados pelos ataques possuem um alcance que
vai muito além das vítimas e de suas famílias.
Como possuem um forte impacto na mídia, os ataques
têm alcançado uma ampla divulgação,
repercutindo negativamente na imagem do Estado",
lamenta.
Um fator operacional pode estar contribuindo para esta
imagem negativa. Pernambuco também está
entre os locais no mundo com maiores índices
de fatalidade entre as vítimas de ataques de
tubarão. Enquanto a média mundial é
de 12%, o Estado registra 38%. O número de mortes
evidencia a falta de estrutura do Corpo de Bombeiros.
() Segundo o assessor de imprensa do Corpo de Bombeiros,
major Lamartine Barbosa, as ações de fiscalização
e vigilância do órgão no que diz
respeito aos ataques de tubarão contam com 10
postos fixos de guarda-vidas, cada um com dois homens,
distribuídos entre os municípios do Recife
(6), Jaboatão (2) e Olinda (2), das 8h às
17h. Apenas dois jet-skis e um bote inflável
monitoram toda essa área. "Com a realidade
de pessoal que temos hoje, não podemos acrescentar
nem mais um guarda-vida. Caso contrário, a cobertura
para incêndios, acidentes e atendimento pré-hospitalar
ficará desfalcada. Precisamos ampliar o efetivo
e adquirir mais equipamentos", admite. De acordo
com Lamartine, o governo não destina uma verba
específica para tubarão. "O investimento
é direcionado ao Corpo de Bombeiros como um todo."
O assessor ressalta que a última aquisição
de material feita pelo governo foi de 46 "sharks
shields", uma espécie de bóia com
eletrodos que é presa na perna do guarda-vida
e emite ondas eletro-magnéticas, funcionando
como repelente de tubarão. "Não adianta
ter os equipamentos e não ter bombeiros para
usá-los."
IMPRUDÊNCIA
- A população não é apenas
vítima dos tubarões. Muitas vezes, ela
também tem sua parcela de culpa ao se arriscar
em áreas proibidas, acreditam os especialistas.
Segundo o professor Fábio Hazin, Pernambuco é
o local do mundo onde se tem mais placas de alerta na
orla. "Mesmo assim, mais de 90% dos ataques aconteceram
nas áreas de risco delimitadas pelo Estado, que
são devidamente sinalizadas", destaca Alexandre
Carvalho, presidente do Instituto Oceanário,
responsável pela parte de educação
ambiental do Cemit. Carvalho conta que os surfistas
estão proporcionalmente mais expostos aos ataques
de tubarão do que os banhistas porque ficam mais
tempo no mar e em águas mais profundas. "Dos
50 ataques registrados no Estado, 28 vítimas
eram surfistas ou bodyboarders", completa Hazin.
Foi
o caso de Charles Roberto Soares Veras, 28 anos, uma
das primeiras vítimas de ataques de tubarão
nas proximidades da Igreja de Piedade, no Jaboatão
dos Guararapes, cidade vizinha ao Recife, ao sul. Segundo
o bodyboarder, mordido na perna esquerda em janeiro
de 1993, naquela época não se falava muito
de tubarão e a área ainda não era
proibida para o surfe. "Hoje continuo surfando,
mas apenas em Porto de Galinhas ou Maracaípe
[Litoral Sul do Estado], onde o esporte ainda é
liberado", diz. Apesar de ter sido alertado pelos
pais sobre os riscos de ataques, o surfista Humberto
Pessoa Batista, 27, morreu em junho deste ano na praia
de Del Chifre, em Olinda, cidade também vizinha
ao Recife, ao norte. "No dia em que aconteceu um
ataque em Boa Viagem, acordei Beto (como era chamado)
para que ele visse a reportagem na televisão.
Alertei mais uma vez sobre o perigo que ele estava correndo,
mas ele não me ouviu", conta o pai do surfista,
João Humberto Batista. Del Chifre havia sido
excluída da área de restrição
à prática de surfe pelo Cemit no início
deste ano e não dispunha de guarda-vidas. |
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