A vida de Zé João

Numa tarde de terça-feira, em agosto de 1975, surgiu na pista de atletismo do Esporte Clube Pinheiros um jovem nordestino alto e macérrimo. Veio indicado por um sócio. O nome dele era José João da Silva, natural de Bezerros, Pernambuco. Apresentou-se dizendo que tinha vindo ao clube por que sabia que ali havia um grupo de atletas e ele queria fazer parte daquela comunidade. E rapidamente foi me informando que queria treinar bastante para poder correr na São Silvestre e vencê-la". Eu era técnico do E.C. Pinheiros para corredores de fundo. Portanto,
assumi a responsabilidade de treinar aquele jovem com sonhos de vencedor. Seus primeiros treinos foram decepcionantes - ele não sabia correr. Devido ao seu estilo bastante inusitado, o Pedrão, também técnico do clube, o apelidou de "arataca". Depois de alguns dias, o Zé, ou arataca, sumiu. Imaginei que ele havia desistido.

De certa forma, fiquei mais ou menos aliviado com sua provável deserção.
Alguns técnicos do clube haviam solicitado, de maneira bastante polida, que eu o dispensasse, pois ele jamais faria resultado e a equipe era de campeões.

Após quase um mês, ele apareceu novamente para treinar, me informando que sua ausência foi devido ao falecimento de sua mãe, Dona Maria Leopoldina, lá em Pernambuco, perto de Bezerros. Os treinos frustrantes continuaram, com muita rodagem e centenas de educativos de corrida.

Nossa convivência passou a ser mais constante, mas era muito difícil conversar com ele, por que não se entendia o que ele falava, tal a rapidez das palavras e seu sotaque nordestino. A vida profissional do nosso atleta era difícil: ele estudava e trabalhava numa cantina na rua Pamplona, entregava pizza,preparava coquetéis, carregava lenha para o forno, e de quebra, quando terminava a noite, lavava e limpava a cantina.

Num dia 31 de dezembro, nosso atleta-garçom foi entregar uma pizza no antigo Hospital Matarazzo, para chegar lá êle devia cruzar a avenida paulista, mas teve dificuldades pois havia um grande número de corredores passando. Era a São Silvestre, que ele desconhecia, isso chamou muito a sua atenção e atiçou ainda mais sua vontade de correr.

Uma noite, após o expediente, o dono da cantina o levou para fazer o percurso da São Silvestre. Ele correu de sapatos e o tempo foi medido num relógio de pulso - não era um cronômetro- de um dos colegas que o acompanhou de carro. Dessa forma, através de Pelicciari, ele foi indicado para treinar atletismo no E.C. Pinheiros.

Como sua vida de funcionário da cantina, estava atrapalhando o seu rendimento,conseguimos
um emprego no restaurante do clube por intermédio do Dr. Geraldo Paes de Barros Couto, diretor de atletismo, lá ele também seria garçom. Infelizmente isso não deu certo, ele era obrigado a trabalhar aos domingos e sempre havia provas para competir pelo clube. Seus salários vinham com descontos e, às vezes, nem salário ele recebia. Foi então que conseguiu uma pensão para atletas na Av. Iraí, em Moema (São Paulo), e o Zé foi para lá morar junto com os outros atletas.

Em Dezembro de 1976, ele correu a preliminar da São Silvestre e classificou-se em 65º. Na noite da São Silvestre, classificou-se em 89º. Ninguém no clube levava fé nesse campeão. Em março de 1977, correu um Cross Country na cidade de Mauá, em São Paulo, na distancia de 14 quilômetros e desistiu. Foi a única vez que chamei a atenção dele: disse que, quando um atleta começa desistindo, isso se torna um estigma e ele sempre vai acabar desistindo. E eu sempre
o programei para poucas provas, mas com qualidade. Essa observação foi muito bem entendida, pois embora não imaginássemos, ele era um "fora de série". Nunca mais em todo o tempo que convivemos, e até hoje , o José João da Silva desistiu de nada. É um vencedor na vida.

Em 31 de dezembro de 1979, sua classificação na São Silvestre foi 15º com a chegada realizada no estádio do Pacaembú, em São Paulo. Mesmo assim, ninguém levava fé naquele pernambucano. Após algum tempo informei aos diretores do clube que na próxima São Silvestre poderíamos nos classificar entre os cinco melhores atletas da corrida, porém, não fui ouvido. Sua vida e a minha continuaram com muita dificuldade. No mês de agosto de 1980, depois de um convite, eu e o Zé fomos para o São Paulo F.C. , o que transformou nossa vida radicalmente.
O clube lhe deu ajuda de custo, emprego, alimentação e uma estrutura de primeiro mundo para que pudéssemos desenvolver um trabalho que nos desse condições de ganhar a São Silvestre. Com todo esse apoio oferecido pelo tricolor ao atleta e a mim, a evolução foi impressionante: vencemos duas vezes a São Silvestre, em 1980 e 1985, respectivamente; fomos terceiro colocados em 1981 e 1982 e vice-campeões em 1984. O Zé deixou de ser campeão em 1983 porque sofreu uma fratura no braço poucos dias antes da prova. Em sua carreira, colecionou um enorme cartel de vitórias e grandes apresentações como fundista, sempre representando o São Paulo F.C. e o Brasil com dignidade e muita humildade, características necessárias para qualquer atleta."

(Professor Carlos Gomes Ventura)

José João acaba com tabu de 34 anos
A última noite do ano de 1980 reservou aos brasileiros uma emoção inédita.
Para os amantes do atletismo, somente comparada em vibração à conquista do tricampeonato mundial de futebol em 1970, no México. Era o fim de um tabu de 34 anos, com a vitória de um brasileiro na edição de número 56 da Corrida Internacional de São Silvestre.

No pelotão de elite, à frente de uma multidão recorde de atletas, o pernambucano José João da Silva, atleta do São Paulo F.C., era a maior esperança brasileira de uma vitória na principal prova pedestre das Américas. E ele largou com vontade de vencer, deixando o português Fernando Mamede, um dos grandes favoritos à vitória, para trás.

J
osé João desceu a Brigadeiro na frente e liderou a prova até a avenida São João. Mas, no ponto crucial da corrida, a atemorizante subida da Consolação, o português Mamede reagiu e ultrapassou o brasileiro. Nem tudo, porém, estava perdido. Quando os líderes entraram novamente na avenida Paulista, José João mostrou garra e, incentivado pela fanática torcida, partiu para cima do português. Parecia que suas energias haviam se redobrado; ele foi ganhando terreno com suas ritmadas passadas, para finalmente ultrapassar Fernando Mamede português
e superar aqueles instantes de grande tensão. O Brasil estava muito perto da tão sonhada vitória. José João venceu com o tempo de 23min40seg. O português Mamede ainda perdeu a segunda colocação para o colombiano Sílvio Salazar.

No ano de 1985, na 61ª edição da prova, José João da Silva, representando novamente o São Paulo F.C., conseguiu o bicampeonato com o tempo de 36min48seg. O atleta liderou a prova do começo ao fim e, durante o percurso, manteve boa distância sobre o segundo colocado Rolando Vera, do Equador. Mais experiente e determinado, José João deixou claro para a torcida que
não teria adversário. Apoiado pelo público, superou sem problemas os pontos delicados do percurso, como a subida da Consolação, e entrou na Paulista debaixo de fogos e aplausos, já comemorando o título.

Em cinco anos, era o terceiro título. Em 83, outro João, desta vez o da Mata, havia levado o Brasil novamente ao lugar mais alto do pódio. De fato, o Brasil é um país de Josés e Joões... Imagine, então, quando alguém tem a ousadia de se chamar José João da Silva.


   
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