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Psicologia e esportes de aventura
Autor: Carlos Vageler
A idéia deste é discorrer no âmbito psicológico da prática
esportiva,
mais especificamente os esportes de aventura. O assunto sempre me chamou
bastante a atenção, desde a época de minha graduação e na prática do ensino, tanto
no curso de Educação Física quanto em cursos não formais que ministrei. Depois de
uma boa conversa com minha amiga Lívia Gomes, psicóloga, bem conhecida dos
telespectadores dos programas Atitude.com e Olhar 2005 da TVE Rio de Janeiro, voltei à
atenção ao
assunto.
É bem pouco comum um psicólogo sugerir a prática da escalada,
pára-quedismo ou mesmo um trekking para um paciente, mais pelos supostos e reais riscos,
não diferente de um ciclismo, mas pelo desconhecimento de sua prática. Para
Lívia, que praticou escalada durante sete anos e participou de várias travessias
por montanhas, isso não é tão complicado assim. Mesmo porque ela mesma já
subtraiu experiências positivas de sua prática no esporte.
A prática do ensino do esporte compreende uma série de requisitos, que
passam muito longe do simplesmente “Tente fazer assim”. O profissional de educação
que trabalha com pessoas de várias faixas de idade e cultura variada deve se
preocupar com uma série de conceitos que muitas vezes são negligenciados durante seus
anos de formação acadêmica. A psicologia do esporte, parte integrante do
currículo de um Professor de Educação Física, lida com questões que quase sempre passam
desapercebidas.
Na escalada, por exemplo, o que é mais visível durante o aprendizado de
um aluno é o seu notável desenvolvimento de confiança, aliado normalmente ao seu
progresso físico motor.
A explosão de novas sensações numa primeira escalada, seja ela em muro
artificial ou rocha, em maior intensidade, é visivelmente estimulante para o
praticante, seja ela numa rápida primeira experiência ou no âmbito de “campo de aula”.
O profissional do ensino deve estar atento, porém, a uma série de
sinais que o
aluno emitir neste início, pois é ele que vai formar a base
“sentimental” para com
o esporte. Na escalada, o iniciante tem que seguir na forma mais lúdica
possível
seja ele uma criança ou adulto, que normalmente agem da mesma forma
neste momento, iniciando-se um verdadeiro “namoro” com “A” rocha, sentindo seu
cheiro, sua textura, temperatura, até que então se faça uma relação de
“intimidade” com “O” mineral. (note a ênfase para que satisfaça ambos os sexos e suas
variações).
O mais comum é o professor, durante todo o curso, ter que lidar com o
medo do aluno seja ele expressado de forma totalmente clara ou não. O medo é algo
inerente à raça humana. É o que você imagina que está por vir, numa dimensão
individual. Imagine duas pessoas em um caminho, aparece um cachorro com cara de mal, uma já
conhece o animal e sabe que é inofensivo, a outra não, e num primeiro instante
fica imóvel, apreensiva, suando frio, imaginando que pode ser atacada. Até que o
animal comece a fazer “gracinhas” e se mostra amável, a imaginação do terrível que
possa ocorrer fica instalada. Após isso sobra o alívio. Se caso a pessoa for atacada
de fato, o medo acaba e sobra apenas a reação, o instinto de sobrevivência.
Na escalada, por exemplo, ocorre o mesmo. A dimensão imaginária
normalmente é maior que a prática durante o aprendizado. Somente as múltiplas experiências
é que irão dissolver o medo em frações controladas para a prática segura do
esporte. A superação é constante e a adrenalina passa a ser a resposta do medo.
Um exemplo do que o medo pode fazer mesmo em pessoas com experiência e
gosto por altura é o momento em que, fora de uma escalada, em um prédio, no
vigésimo andar, você chega próximo ao guarda corpo e olha para fora. Somos “puxados”
para baixo, achamos que não vamos resistir a essa atração e neste momento ínfimo
imaginamos como seria pular e um frio na barriga começa. O efeito do medo controla
esta atração e nos afastamos dela.
No aprendizado da escalada, não basta passar os fundamentos, dinâmica e
técnicas do esporte. Na progressão da via não podemos simplesmente dizer "faça
assim”. Muito comum é um aluno “travar” no deslocamento, por ter receio de colocar o
pé ou mão numa determinada agarra. Se neste ponto você diz apenas – coloque o pé
ali e vai que não tem problema, provavelmente o aluno ficará olhando para sua
cara e continuará parado.
O melhor nessa hora é perguntar ao aluno o que ele acha que irá
acontecer se ele
colocar o pé ou mão naquela agarra, um questionamento. Neste momento,
independente da resposta, você irá ter a possibilidade de começar a desmontar o medo
que está o paralisando. Pode ajudar a formar o auto-controle, desmontando a
fantasia, o super dimensionamento do problema que ele, o aluno, tem da situação.
Se bem trabalhado, os esportes de aventura, com boa orientação, podem
ajudar pessoas a melhorar a auto-estima, controlar fobias, aumentar noção de
espaço e de relações interpessoais e jogar a timidez um pouco de lado. É importante
salientar que sempre se deve procurar profissionais do esporte treinados e
capacitados para aquela função, professores de Educação física e em casos especiais um
psicólogo com especialização e experiência esportiva.
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