Eritropoetina: breve revisão, doping e estatística Introdução

Autoria: Larissa Machado Lacerda, Carla Madeira Marques e Caroline Zuanazzi
(Alunas da Faculdade de Biomedicina do Centro Universitário Feevale, Rio Grande do Sul -Brasil)
   
Introdução

No esporte, a busca pela perfeição no desempenho físico é algo almejado em todas as categorias. Principalmente nas modalidades de “endurance”, que exigem um condicionamento potente, a fisiologia e bioquimismo do atleta são processos fundamentais1. Com o objetivo de um aumento artificial de seu desempenho, através de uma alta oxigenação tecidual, ocasionada por aumento do número total de eritrócitos, muitos esportistas se valem de práticas ilícitas, envolvendo um importante hormônio: a eritropoetina (EPO)1, 2.
   
O uso da EPO para doping surgiu na década de 70, através do condicionamento dos atletas a câmaras hipobáricas (o que induz aumento da síntese de eritrócitos) e transfusões sanguíneas1, 3. Estas práticas só deixaram de existir em 1988, quando laboratórios desenvolveram uma forma sintética de eritropoetina4. A partir disto, as atenções de organizações esportivas de todo o mundo se voltaram para este tipo de doping, e técnicas de detecção para esta droga foram, e continuam sendo, produzidas. Além disto, entidades esportivas se empenham para elaboração de programas de conscientização e orientação dos atletas a respeito dos perigos desta prática.

Eritropoetina endógena

   
A eritropoetina (EPO) é um hormônio endógeno glicoprotéico de origem renal (90%) e hepática (10%) nos adultos e somente hepática no período embrionário5, 6. É composta por 165 aminoácidos e de duas a quatro cadeias sialiladas podem estar presentes em sua estrutura, devido aos três sítios de glicosilação N-ligados e à cadeia O-ligada que possui7, 8. Esses resíduos de ácido siálico constituem um sinalizador biológico da EPO, a fim de evitar que esta seja depurada pelo fígado antes que alcance seu alvo fisiológico2. Sua estrutura pode ser visualizada na figura 1. Também, devido aos resíduos de ácido N-acetilneuramínico (ácido siálico) que possui nas extremidades de cadeias glicídicas, a EPO possui carga negativa e um ponto isoelétrico (pI) que varia em torno de 4,5 a 5 10, 11.


Figura 1. Estrutura química da EPO, uma glicoproteína com peso molecular de 160000 Da com 166 aminoácidos e duas 
pontes dissulfídricas. Possui duas subunidades a e β. A EPO é composta por vários carboidratos e oligossacarídeos ligados.9
       
Apesar de esta metodologia possuir uma fundamentação consistente, ainda sofre com muitos interferentes e variáveis. A exemplo disto, temos o atleta que, em torno de uma semana antes da avaliação, cessa o uso da EPO sintética. Como esta possui uma meia-vida pouco considerável no plasma sanguíneo, o infrator tem grandes chances de não ser identificado por seu ato, já que a metodologia utilizada pode não ser capaz de identificar a substância do doping2.
   
Não obstante a estes pontos defasados, a identificação laboratorial da EPO está em constante desenvolvimento, e formas, que não o padrão-ouro, tem mostrado igual eficácia nos resultados. Inúmeros estudos publicados conotam a diversas outras metodologias que, comprovadamente, realizam a detecção da EPO sintética. A exemplo disto, temos testes baseados em anticorpos mono ou policlonais anti-EPO humana, utilização de marcadores fisiológicos, investigação por cromatografia líquida, análise de marcadores gênicos eritróides, entre muitos outros2, 7, 28, 33.

Dados estatísticos relacionados ao doping por eritropoetina

   
A Agência Mundial Anti-Doping (World Anti-Doping Agency – WADA), responsável por normatizar a metodologia de detecção da eritropoetina sintética em atletas praticantes de diversas modalidades esportivas, disponibiliza, periodicamente, documentos que fornecem dados acerca da estatística referente ao o uso desta substância de forma ilegal.
   
Este trabalho, mostra dados retrospectivos da utilização da rHuEPO no período de 2003 a 2007, e analisa se um decréscimo de seu uso está ocorrendo ou não, já que campanhas de conscientização sobre os efeitos adversos de seu uso indevido vem sendo realizadas por diversos órgãos internacionais17.

2003: amostras de 151.210 atletas, de diversas partes do mundo e praticantes das mais diversas modalidades esportivas, foram analisadas, sendo que destas, 2716 continham alguma substância ilegal. Destas amostras com resquícios de ilegalidade, um total de 79 apresentou positividade para presença de hormônios peptídicos (grupo no qual se encontra a rHuEPO – S5), o que corresponde a 2,9% do total de testes positivos realizados. A representatividade da eritropoetina e darbepoetina no grupo S5 foi, respectivamente, de 64,6% e 8,9%, geradas a partir de 51 e 7 amostras de cada substância, conforme mostra a tabela 131.

2004:
amostras de 169.187 atletas de modalidades olímpicas e não olímpicas foram analisadas, com positividade de doping em 3305. Destas 3305, 78 foram positivas para hormônios peptídicos (grupo S5) , correspondendo a 2,4% do total dos testes. Dentre estas amostras do grupo S5, a eritropoetina contribui com 48,7%, ou seja, 38 amostras. Estes dados podem ser observados na tabela 231.

2005: das 183.337 amostras analisadas, 4298 foram positivas para substâncias ilegais. Dentre estas, 3,8% (162 amostras) pertenciam ao grupo de hormônios (S2), no qual se encontra a eritropoetina e a darbepoetina. A EPO, no grupo S2, representou 9,3% (15 amostras) das amostras positivas, enquanto que a darbepoetina contribuiu com apenas 0,6% (1 amostra), o que fica evidenciado na tabela 331.

2006: 198.143 atletas foram testados em relação à presença de substâncias ilícitas, com resultados positivos em 4332. Destes positivos, apenas 1% (42 amostras) foram relacionadas a hormônios (grupo S2). A eritropoetina, com 17 amostras, representou 40,5% deste grupo e, com uma amostra, a darbepoetina correspondeu a 2,4%., conforme pode ser confirmado na tabela 431.

2007: amostras de 223.898 atletas, de diversas modalidades esportivas, foram analisadas, sendo que 4850 continham alguma substância ilegal. Destas amostras, 41 apresentaram positividade para presença de hormônios peptídicos (grupo no qual se encontra a rHuEPO – S2), o que corresponde a 0,8% do total de testes positivos realizados. A representatividade da eritropoetina e darbepoetina no grupo S2 foi, respectivamente, de 53,7% e 4,9%, geradas a partir de 22 e 2 amostras de cada substância, conforme mostra a tabela 531

Conclusão e implicações para o futuro

   
Mesmo possuindo um potencial de causar riscos à saúde, formas exógenas de eritropoetina, que proporcionam melhora no condicionamento físico devido à influência sobre o sistema hematopoiético, são usadas por atletas que visam melhores resultados na prática esportiva, principalmente em modalidades de “endurance” 1.
   
Com o intuito de controlar este tipo de doping, várias organizações mundiais desenvolvem estratégias para prevenir e detectar de forma eficaz a presença de EPO sintética. Ainda há muito que se descobrir e aplicar. Técnicas recentes como o doping genético, onde uma cópia do gene que codifica a eritropoetina é adicionado no esportista, são praticamente indetectáveis, embora alguns estudos sugerem que é possível diferenciar, por meio do padrão de glicosilação protéico, a eritropoetina produzida pelo gene nativo da produzida pelo gene transferido.

Porém, novas metodologias ilícitas para melhora na performance surgem periodicamente, enquanto que as técnicas continuam defasadas, e necessitam cada vez mais serem aperfeiçoadas para se obter uma maior confiabilidade dos resultados obtidos.

EPO - Hormônio sintético de Eritropoietina(Efetiva, ilegal e mortal)

A eritropoietina ou EPO é um hormônio glicoprotéico produzida nos seres humanos e nos animais pelos rins e fígado (em menor quantidade) que tem como função principal regular a eritropoiese.

O gene que codifica a eritropoietina foi clonado em 1985 e é utilizado com êxito na produção artificial do hormônio.

A EPO é muito utilizada para o aumento do desempenho dos atletas, sobretudo nas modalidades de fundo, como o ciclismo, o atletismo ou esquio posto que aumenta o nível de glóbulos vermelhos no sangue, melhorando assim a troca de oxigênio e elevando a resistência ao exercício físico.

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